segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Viciado em um "Velho Bêbado"


Desde algum tempo o livro que mais me orgulhava intimamente de ter lido era o romance "Factótum" de Charles Bukowski, o romance conta a história de Henri Chinaski, alterego do escritor, em uma viagem pelos Estados Unidos regado a romances baratos, tragos de whisky e bicos empregatícios, apesar de o enredo não ser nenhuma novidade se tratando de contra-cultura americana, a forma que o Bukowski me contava aquela história me trouxeram os maiores gozos literários que até então já tivera em vida, aquele autor frio, sujo e principalmente bêbado, me cativara de uma forma impressionante que durante alguns anos minha quase única indicação de romance marginal era devotada ao "Factótum".
Daí em diante um dos objetivos que tinha em vida era sentir novamente essa sensação, procurei outras obras do gênero, em vão, nada mais que simples e passageiras ereções, até que me foi prometido há pouco tempo um outro livro do velho Bukowski, mas dias depois meu presenteador talvez se encantou com a obra e desistiu de me presentear, não ia ser agora.
Uma das grandes incapacidades declaradas que sempre tive, foi que jamais conseguiria ler um livro por uma tela de computador, apesar de jamais ter tentado, aquilo me parecia tão concreto que jamais pensei em discutir comigo mesmo sobre o assunto. Porém nesses últimos tempos algo me puxava a tentar baixar um livro do Bukowski, eu não podia mais passar sem descobrir se aquela paixão tinha sido momentÂnea e casual ou o Bukowski era capaz de me proporcionar aquilo novamente, escolhi o "Misto Quente" e decidi tentar, a rapidez e a forma como aquela obra foi consumida frente a tela do computador me fez ter certeza que surpreendentemente eu era capaz, e enquanto ao livro... era disso que eu estava falando, o Bukowski continuava lá, intacto, frio, sujo e bÊbado como eu o deixara há anos atrás.
Além de tudo isso, agora ainda me fazia descobrir uma potencialidade, eu sou capaz de ler livros por uma tela de computador. Descubro também que quase todas as obras do Bukowski estão facilmente disponíveis para serem baixadas, e o pior, eu sei que eu não vou conseguir parar.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Sim, e Agora?


Não que eu tenha qualquer esperança reanimadora após o reinício do calendário anual gregoriano ,mas dentre todas as datas potencialmente litúrgicas deste, o denominado "Ano Novo" talvez seja a data que eu nunca realmente tive aversão total às suas comemorações, mesmo tendo por vezes solicitado junto a minha mãe uma vaga no banheiro para fugir dos vizinhos que nesta data tornavam-se assaz amigáveis e sempre tinha um abraço desejativo para o ano que se iniciava e pelo sempre desprezo infantil à "queima de fogos", jamais conseguia compreender a que servia a "queima" de tanto dinheiro a um serviço estético tão passageiro.
Porém inicialmente por esta data ser a única a me possibilitar a virada da noite sem qualquer restrições horárias, mesmo que por vezes eu mesmo não aguentasse e curtisse o amanhecer do primeiro dia do ano pela micro-janelinha que ficava na cama de cima do beliche sempre ocupada pelo meu irmão mais velho, acabei aceitando as aversões e tendo sempre este dia como um "grande" dentre os 365 ou por vezes 366 que completava sempre esta "difícil" jornada. Outro fato também que talvez me faça lembrar o "Ano Novo" com certa pujança é que a vizinha da minha primeira casa fazia aniversário (liturgia que jamais criei o mesmo apreço) no dia 31 de Dezembro, as suas festas se estendiam facilmente até o dia primeiro, numa dessas festas que sempre arrumava um jeito de adentrar foi a primeira vez que ingerí bebida alcoólica e percebi os seus efeitos pra valer, para além de apreciar os efeitos desta bebida que me fez dormir na rua pela primeira vez, o status que isso me causou com 8 anos de idade é mais um dos motivos que sempre me fez lembrar desta data com carinho.
Mais tarde o último dia do ano devido a rapidez com que ele se repetia, foi talvez a primeira potencialidade que me fez pensar reflexivamente na morte, o que eu também achava bom, meus primeiros pensamentos questionadores e mais complexos se derivavam na virada do ano. Agora a pouco mais um ano se passou de acordo com o calendário Ocidental, eu estive próximo a Barra, bairro de Salvador, onde uma queima de fogos como de costume se instaurou por vários minutos, e como também de costume, mas agora por outros motivos, isto também voltou a me incomodar, este é o vigésimo "reveillon" que passo na Terra, talvez o décimo sexto que lembro-me com detalhe, e curiosamente apesar de já ter percorrido deveras diversos locais, jamais estive fora da Bahia nesta ocasião, vai ver é isso...

sábado, 21 de novembro de 2009

"A música do Mundo Livre é farta..."


Verdade que eu tinha ouvido pouca coisa do Mundo Livre S/A comparado com o que já havia consumido da outra banda que comanda o início do belo movimento mangue beat pernambucano, a Nação Zumbi, porém conhecia um pouco da proposta musical do Mundo Livre, motivo suficiente da surpresa ao ouvir o álbum "O Outro Mundo de Manuela Rosário" e descobrir que aquele belo trabalho também era alcunhado pelo Fred Zero Quatro e sua turma.
"O Outro Mundo de Manuela Rosário" já me encantara quando ouvi a primeira vez pelo sincretismo musical, comum do Mundo Livre, pela sua beleza transcendental intimamente ligada pelo vocal "JorgeBeniano" assumido pelo Fred Zero Quatro e pricipalmente pela frase final da canção "Azia Amazônica" que erroneamente abria o "cd" devido ao erro no "download", mas que me fez parar em frente ao som e escutar com atenção tudo que era pronunciado pela voz chorosa do Fred Zero Quatro e por diversas outras que vão aparecendo em forma de entrevistas mescladas com a inteligência musical do Mundo Livre. Logo após, descobri que o álbum é um projeto-denúncia do Fred Zero Quatro contra os latifundiários da região de Pesqueira em Pernambuco após o assassinato do cacique Xucuru, mas em nenhum momento o álbum se perde no monotematismo pois inteligentemente é conduzido pelas diversas facetas da opressão, analises sistêmicas impecáveis, a história da Manuela Rosário é linda, e, e, é isso, belo, belo!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são", será?


Enquanto tentava desesperadamente por quase duas horas seguidas dormir nesta madrugada, irritava-me deveras com os pensamentos que sempre resolvem aparecer justamente na hora em que tento dormir, milhares de coisas rondam a minha cabeça enquanto eu tento esquecer de tudo e concentrar-me nos meus objetivos soporíferos, em vão.
As primeiras insônias das quais recordo foram causadas pelo filme "A Noite dos Mortos Vivos" geralmente transmitido pela Rede Bandeirantes, lembro-me que as imagens daqueles zumbis sempre voltavam na escuridão no meu quarto, e de medo, procurava sempre algum aconchego familiar pra me acompanhar nessas noites, acabei assistindo tantas vezes esse filme que era quase impossível conciliar escuridão e solidão com noites de sono, sempre precisava de pessoas ao meu lado para dormir, felizmente meu medo de escuro foi se acabando paralelamente com a certeza de que pessoas não eram a solução, acreditei que era o fim, não era.
Passado a época do medo, acabei me tornando um pouco mais tarde um ser altamente ansioso, e qualquer expectativa por menor que fosse me fazia ter insônias arquitetando involutariamente milhares de planos pro dia que viria, logo depois acabei descobrindo também que expectativa não era a solução, pelo contrário!
Seria o fim?
Não. Nesta madrugada me peguei novamente tendo insônia por medo, por medos, excêntricos e estranhos medos, mas quem dera fosse daqueles ocasionados pelo "A Noite dos Mortos Vivos", eu sei que estes não vão passar quando amanhecer.


"Xii", está amanhecendo!

Rafael Maurício, 5:26 a.m

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O que o Woody diria agora?


Dentro de uma madrugada onde discuti conceitos de liberdade, ouvi Nina Simone, duas pessoas me recomendaram a então desconhecida musicalmente por mim, Ella Fitzgerald, fui convocado a descobrir as peripécias literárias de dois amigos, e ainda tive tempo para (re)perceber que a subjetividade tem lá o seu preço, por causa de uma citação em uma conversa dessas que se tem na internet, termino a minha madrugada com uma imensa vontade de ouvir o que o velho Woody teria a me dizer nesse começo de 10 de Setembro, percebo também que mesmo o Woody Allen naturalmente figurar em meu Top 3, só tive o prazer de ver os fabulosos "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" e "Manhattan", "Poderosa Afrodite", e o intenso e mediano(para mim) "Vicky Cristina Barcelona", o humor mais fabuloso da história do cinema, só figurou na minha vida em quatro oportunidades, e começo a descobrir musicalmente a Ella Fitzgerald, obrigado pela dupla indicação, ela deve merecer.

sábado, 5 de setembro de 2009

"Pra que rimar amor e dor?..."



Se não existissem as rimas, todos os poemas seriam potencialmente sinceros. Não a sinceridade do autor, esta pouco importa, mas a sinceridade da poesia.
Não sei se alguem pensa nisso também, mas jamais consigo adentrar sentimentalmente, conteplativamente poemas "rímicos", passo o tempo tentando preencher hiatos, descobrir ou perceber qual palavra seria a escolhida se não
fosse pra satisfazer esse enquadramento "rímico", me irrita também como cativam foneticamente, como se quisessem esconder algo, como me irritam as rimas poéticas.
Acabo de pensar nisso, não sei se serve, mas como diria Drummond: "...Se eu me chamasse Raimundo...", seria tão fácil se me chamasse Raimundo, mas prefiro soluções.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tudo pelo "Budapeste"


Após desistir de encontrar a sala de aula de Sociologia I, matéria que completaria o meu horário acadÊmico da manhã de quarta, decido ir sozinho conferir a adaptação cinematográfica da obra de Chico Buarque, "Budapeste". Corro pro cinema do Shopping Riomar que em sessão única as 14h vem transmitindo o fime do Walter Carvalho, o problema é que corri tanto que cheguei ao local acho que pouco antes de 13h, o guichê de venda de ingressos para a sessão só abriria as 13h50, o pior que ter que esperar cerca de uma hora sozinho em um shopping, é ter que esperar sozinho cerca de uma hora em um shopping que consegue destruir o meu mandamento "todos os shoppings são iguais", não, este é pior, e ainda sem relógio. Descobrindo isso, saio do guichê fechado acho que com toda baianidade aflorada, pois dentre dezenas de pessoas que passava pelo local, um rapaz me escolhe para tentar vender um ingresso para o show de Ivete Sangalo, e só desiste quando eu infelizmente um pouco irritado falo: "Eu jamais pagaria para ir a um show da Ivete Sangalo".
Pois bem, como eu sabia que esta uma hora não seria como as horas costumam ser, demorararia no mínimo cinco, o próximo passo seria achar atividades que fizessem de algum modo o tempo passar, ligo para minha mãe, passeio pelo G.Barbosa comparando preços que jamais me importariam em outra situação, sento em um banco e leio meu horário que havia imprimido a pouco, umas 15 vezes, talvez pra conseguir encontrar a sala de aula de Sociologia I da próxima vez.
Após o tempo passado sou enviado para a sala 3 do Cinemark, sento na última fileira, onde sentariam também dois homossexuais afetados, nada contra homossexuais afetados, mais eram dois homossexuais afetados chatíssimos, daqueles que reclamam de tudo, da porta semi aberta do cinema à inclinação longitudinal da cadeira da frente, e que faziam questão de enfatizar que estavam sempre presentes na sessão "cult" do cinema, porém devido ao atraso do filme foi eles que me divertiram contando um ao outro suas experiÊncias (chatíssimas também) em Recife. Pois bem, logo a seguir entram duas loiras e uma comenta: "acho que eu lembro desse livro do Chico, é o que é passado na Holanda eu acho", neste momento o livro e o filme ainda se chamavam "Budapeste".
Começa o filme e um rapaz meio titubeante para em pé na minha frente, como se tivesse decidindo se veria o filme, olha pra trás e pergunta: "Será que é bom", me vem uma angústia e uma vontade de rir, diante dessas sensações fingir que não ouvir, logo em seguida descubro que se eu tivesse dito que o filme era horrível o faria ir embora eu havia perdido uma grande oportunidade, no decorrer do filme toda e qualquer cena de nudez ou sexo, ou nudez e sexo, que não são poucas em "Budapeste", eu tinha que aguentar esse rapaz rindo e olhando pra minha cara como se fóssemos amigos, evitei rir em qualquer cena até metade do filme quando ele foi embora. Só havia essas pessoas citadas na sala de cinema, mais um senhor eu acho.
E o filme, ah o filme, apesar de realmente não ter desgostado da adaptação do Walter Carvalho, saí do cinema com uma sensação de, "Essa obra não deveria ter sido adaptada", as subjetividades que a obra do Chico lhe permite, inclusive pra mim o ponto alto do livro, são quase todas respondidas no filme, é como se eu tivesse descoberto ou não a traição de Capitú.
E quando sair, decidir assistir também o filme do Sam Raimi, cheguei para a moça do guichê e disse: "A próxima sessão, 'Arrasta-me para o Inferno'", eu tinha que fazer isto.